quinta-feira, 9 de junho de 2011

Diário de Bordo - 03 e 04 de junho de 2011 - Mergulho no Paraíso




Depois de um bom tempo viajando por outras estradas, começamos a nos mobilizarmos para retomar os trabalhos de campo do Projeto Paralelo 15. Decidimos visitar o Parque Estadual Serra de Ricardo Franco, localizado no município de Vila Bela da Santíssima Trindade, nos arredores da cidade.

Escolhemos a data da Semana do Meio Ambiente para observarmos a movimentação em torno do tema nas cidades e na mídia e na realidade nua e crua dos Parques mais afastados e que não serão beneficiados pelo efeito da Copa de 2014.

Seguimos para Vila Bela pela estrada que está sendo melhorada e chegamos sem sobressaltos, observamos grossas colunas de fumaça saindo dos campos planos nos arredores do Parque, próximo a fronteira com a Bolívia, sinal de que a expansão dos desmatamentos do cerrado para a conversão em pastagens artificiais para a criação de gado não para nunca. Também reparamos que a indústria madeireira em Pontes e Lacerda está revigorada e os pátios das serrarias estão cheios de toras de árvores de Floresta densa, fico imaginando de onde virá esta madeira, pois restam poucas áreas extensas naturais, as maiores são os minúsculos Parques Estaduais e as áreas indígenas.

Hélio Caldas, Arthur Keunecke e Divino Vila Boas

Estamos em três pessoas na equipe, Eu que escrevo e fotografo, o Hélio Caldas que além de Guia de Turismo, guia o carro, fotografa e faz de tudo um pouco, o Arthur Keunecke Fotógrafo e Guia de Turismo na Chapada dos Guimarães que está conosco em busca de fotografar os Poraquês ou Peixe-elétrico moradores dos poços mais fundos de algumas grande cachoeiras do Parque. Iremos incorporar o morador de Vila Bela e velho conhecido, Divino Vila Boas que trabalha como condutor de visitantes na região de Vila Bela, entre outras coisas.

Depois de organizarmos os equipamentos e fazermos contatos com o pessoal de Vila Bela, iniciamos nossa jornada pela região da Cachoeira do Jatobá, a mais alta do Estado de Mato Grosso com 250 metros de queda livre e uma beleza cênica incomparável, pretendemos subir a Serra pela trilha antiga que sai de uma pequena fazenda na margem esquerda do rio Jatobá, a trilha, bastante fechada e complicada é pouco utilizada, pois subir até a Cachoeira exige horas de caminhada semi-pesada num percurso de exatos 5 km, conforme a medição que fiz com meu GPS.

Cachoeira do Jatobá, na seta branca o Divino Vila Boas serve como referência do incrível tamanho da cachoeira. A foto não mostra toda a cachoeira, boa parte dela encontra-se mergulhada na sombra permanente do cânion.

Iniciamos a caminhada com muito peso pois pretendemos acampar no topo da Cachoeira para podermos explorar um pouco melhor a área, logo nos primeiros 500 metros, o Divino tem um problema de saúde e decidimos rapidamente, abortar a missão, bater em retirada e ir para outro local do Parque. Levamos o Divino de volta a cidade que fica a cerca de 20 km, buscamos os equipamentos de mergulho e de foto subaquática e voltamos rapidamente para enfrentar mais 60 km de estrada de terra, vamos em busca da linda cachoeira do Rio Capivari ou como alguns dizem, a Cachoeira do Paraíso, depois de alguns zigzagues em torno de cercas e de fazendolas de gado, revejo o grandioso Vale do Rio Capivari com toda sua Floresta transformada em pastagens, pelo menos 80 famílias ocupam lotes dentro do Parque Estadual e a cada ano derrubam o pouco que sobrou, entre o Vale do Capivari e o Vale do Rio Paraíso, grande parte das Florestas da subida da Serra já foram derrubadas e fico sabendo que até mesmo no alto da Serra já existem ocupações e desmatamentos. Ficamos perplexos pelo rápido avanço da pecuária e pela brutal destruição das grandes Florestas, dentro do Parque e tudo feito a luz do dia e fotografado pelos satélites.

Cachoeira do Paraíso no rio Capivari

Vamos afogar nossa tristeza e desilusão nas águas límpidas e frias do grande poço da Cachoeira, felizmente não encontramos ninguém fazendo churrasco ou bailes de música sertaneja a todo volume, ou ainda pescarias infames nestes berçários naturais, ficamos nossa equipe rodeada por um lugar espetacular e lixo por toda a parte. Lembramos das estradas e cidades Bolivianas, onde o lixo faz parte da paisagem e constatamos que por aqui é a mesma coisa.

Arthur Keunecke mergulhando no paraíso elétrico

Mergulhamos em busca do Peixe-elétrico e dos cardumes de matrinchãs e piaus e passamos o resto do dia tentando descobrir onde estão os cardumes e porque a água tão cristalina agora está um pouco turva, o Arthur depois de muita procura encontra alguns Poraquês a cerca de 8 metros de profundidade e consegue algumas fotos na escuridão do lago, mas as condições de visibilidade da águas estão longe do ideal e o comportamento curioso do Poraquê, intimida até mesmo mergulhadores experientes como o Hélio e o Arthur, ao contrário dos outros peixes que normalmente se afastam do mergulhador, o Poraquê se aproxima até o limite de contato físico, e ter contato com eles, pode levar ao desfalecimento e morte por afogamento pois a descarga elétrica proveniente deste animal é muito poderosa.

Cardume de Piau

Com o final da tarde, começamos a retornar a Vila Bela e conversamos um pouco como filho do famoso Edmilson Goiano, em cujo "lote" se encontra a Cachoeira, talvez a falta de limpidez da água seja decorrente das grande queimadas que assolaram o Parque no ano passado, as cinzas e pó de carvão acabam indo para a água e diminuem a cristalinidade das águas da região.

Paredão do Parque Estadual Serra de Ricardo Franco

Retornamos rapidamente a Vila Bela, não sem antes apreciar o entardecer nos paredões do Parque Estadual, avistando casais de Araras Vermelhas e Araras Canindés que convivem juntas e grandes árvores chamadas Barrigudas com sua floração rosa forte, quase roxo.

Barriguda Florida

Casal de Araras Canindés

Vestígios da floresta original do Vale do Capivari

Chegamos a Vila Bela a noite, paramos para jantar um PF de peixe no restaurante Beira-rio do Édio e da Hosana e logo ficamos sabendo que o restaurante será desmontado em poucos dias, em seu lugar, será construído um restaurante de alvenaria e uma praça de esportes, a praia será toda aterrada e toda a orla de Vila Bela será revitalizada, pelo menos este é o projeto, espero que ele se concretize e ajude a melhorar a vida dos moradores de Vila Bela, completamente carentes de lazer e de equipamentos e infra estrutura de uso público.

Texto e Fotos: Mario Friedlander